Desde a pacificação do Alemão, tenho percebido, aqui, ali e em tudo que é lugar, o tamanho desse mito do brasileiro descolado, desencanado, bon vivant... e o quanto esse mito se cristaliza nas capas da Veja e nas manchetes do Jornal Nacional.
Alguns dirão, e com bastante propriedade, que esse fundamentalismo conservador é artificialmente produzido e imputado sobre o cidadão brasileiro por essas mesmas ideologias arcaicas - o tal partido da imprensa golpista, etc. Eu concordo, quase sempre. O que percebo, cada vez com mais frequência, é o quanto desse movimento não é mera organização racional do conjunto da valores desorganizados - mas muito sólidos - do brasileiro.
Tem gente com medo de que uma cartilha possa transformar nossa magnífica sociedade numa Nação arco-íris... que a tal cartilha, a parada gay, o beijo bicha na novela possam fazer a cabeça de nossos filhos.
E podem. Pelos mesmíssimos mecanismos que nos fizeram - fazem - crer no mito de que uma democracia parida numa antiga sociedade machista e escravocrata seja a mais perfeita expressão da liberdade; nos fazem crer que se não marchar direito, vai preso pro quartel, entre outras crendices que, na verdade, só colam mesmo porque estamos todos preocupadíssimos em fazer bonito pros gringos.
E daí? E daí que, especificamente nessa questão da cartilha, tenho visto um bocado de exageros. O mais gritante deles, o Estado gastar qualquer recurso nesse tipo de empreitada sem ter feito o básico, antes. Tem escola sem merenda ou, pior ainda, com crianças comendo carne de soja a semana inteira. Tem escola sem professor e tem escola, quase todas, com professor ganhando um salário capaz de bancar apenas carne de soja. Então, até que eu veja uma ficalização que resolva esses probleminhas básicos, discordo de qualquer iniciativa semelhante a essa da cartilha.
Questão de prioridades. Não creio nessa perspectiva de minorias destituídas se aplicar ao movimento LGBT. Minoria, talvez. Destituída? De poder político? De poder econômico? De poder midiático?
Outra coisa... tem gente dizendo sandices como homossexual não é normal ou que homossexualismo é normal. Não é uma coisa nem outra. Apenas é.
Já me preocupou muito se meus filhos seriam ou serão gays. Mas, nessa época, eu tinha muito medo de um superfantasma castigador que pudesse nos jogar a todos no fogo eterno, apesar de nos amar incondicionalmente. O que me preocupa, hoje, é que nós todos, de um modo geral, e meus filhos em particular, possamos desenvolver pensamento autônomo, crítico e, mais do que respeito, amor à diversidade. Já pensaram o quão chata e vazia essa vida fica quando todo mundo concorda com você?
Pois é, pois é. Eu tô achando todo esse debate um blá-blá-blá estéril, cego e que estamos perdendo uma baita oportunidade de trazer pro centro das discussões a percepção de que, como sempre fizemos, trazemos a público questões privadas e jogamos ao particular, questões públicas.
O Brasil se vê, escancaradamente, polarizado entre o Bolsonaro e a Preta Gil, como se uma legislação pudesse determinar como se efetiva o comportamento sexual dos indivíduos.
Uns querem me obrigar a denunciar um beijo gay à vigilância sanitária; outros querem que eu denuncie à polícia qualquer um que chame um amigo de bicha. E esses uns e outros devem ser 90% da população.
Vamos jogar tudo na conta da ignorância, de novo?
*Título inspirado nos aforismos de Rodrigo Gutierrez
9 comentários:
Ignorar é o método do brasileiro fingir-se nação.
Historicamente comprovado.
Cada qual com seu umbigo.
E as questões como a das escolas, ficam à mercê - de quê mesmo?
Pois é.
Olha, se eu tivesse que copiar uma frase, coisa que tentei, copiaria o texto todo. Mas o que me vem agora, que estou escrevendo, é esse lance da gente achar que tá pensando, e só está concordando ou discordando.
Meu é tão fácil cair nesse paradoxo... são muitas as opções do pensamento, não podmeos reuzi-las a contra e a favor.
De novo e sempre, tenho que concordar com vc, embora me deixe muito puta reconhecer o que rola por aí. E quiça, na minha prórpia cabeça.
Barbara:
"Ignorar é o método do brasileiro fingir-se nação." Adorei. Aliás, adoro aforismos, taquilparil!
Wal:
"E quiçá, na minha própria cabeça."
Tamerda... será que eu sou cheio dos preconceitos e num tô sabendo!?
Também acho que concordar ou discordar é só posicionamento; Mas eu acho que a gente pensa, sim. Pensamos um monte, achamos isso e aquilo mas... e daí?
angústia turbo, mode on.
Porra... postar sem revisar é uma foda; a pacificação do alemão era pra ter saído entre aspas... vai ver foi ato falho e eu sou só mais um imbecil que acreditou naquilo.
olha, aqui não chegou a pacificação do alemão.....
e se eu tiver que revisar, não mando, acabo mudando de ideia e coisetal....
penso, logo desisto.... e daí? mudo oquê nessa merda toda??????/
ai, quero uma lobotomia urgente
Wal:
Ignorance is bliss?
ai, ai, ai...até quando vc não posta porra nenhuma há 1 mês, ainda me divirto com vc.
beijo e queijo
ié eu, viu
Postar um comentário